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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Contagem regressiva


Agora é oficial. Faltam só e somente 23 dias para o sonho acabar. Coração apertado, pernas bambas e mãos suando frio me descrevem durante a produção desse texto. A pior coisa é a sensação de estar deixando algo para trás. Mas isso, de fato, eu estou deixando. Estou deixando o meu velho EU. O Rafael de seis meses atrás não existe mais, e isso pode ser notado no meu novo shape, agora mais redondo, com umas curvinhas que não existiam e uma pancinha que marca na T-shirt.

Quando eu olho para trás, percebo o quanto essa experiência foi importante na minha vida. Diferentes culturas interagindo, diferentes sabores, diferentes cores, cheiros, texturas e principalmente, diferentes pessoas. No final das contas, intercambio acaba sendo sobre isso, sobre pessoas.

Sou um cara de muita sorte. No meu caminho só pessoas do bem e dispostas a me ajudar passaram. Meus amigos gringos foram maravilhosos, mas o meus brasileiros foram fenomenais. O meu amado nordeste provando que é expert em produzir gente animada e divertida, o sudeste me convidando para conhecer suas maravilhas, mas principalmente o norte, que veio forte e marcou.

Acho que fiz de tudo nesse país. Apareci na TV, nadei no Lake Ontario, presenciei cenas de violência, cenas de amor, cenas de muito amor, bebi, bebi mais, amanheci na rua, atravessei fora da faixa, sai do Beginner, apesar de adorar meu título, e até ajudei ao próximo algumas vezes.

Minha missão agora é transformar esses 23 dias em 1 ano, e viver loucamente, espremendo cada oportunidade e histórias que esse país ainda pode me dar.


terça-feira, 6 de março de 2012

Sobre saudade

Minha Ló


Minha vida tem se resumido a saudade. Saudade da minha cama, saudade da minha casa, saudade da minha família, dos meus amigos, saudade das pessoas maravilhosas que conheci no Canadá e já voltaram para o Brasil e, principalmente, saudade da minha boneca, da minha linda, adorável e louca irmã caçula.

Aquele ser que consegue ter o bem e o mal dentro de si, e que não sabe dosar nenhuma das partes. Que consegue ser irritantemente doce como histericamente grossa, que nunca está satisfeita com os carinhos e que não passa um dia sequer sem chorar.

Que saudade de controla-la, de dizer que ela está gorda, de manda-la calar a boca, de convencer a minha mãe a proibi-la de sair de casa, de manda-la fazer regime, de dizer que ela está horrorosa com a roupa B e que ela precisa usar a roupa A.

Mas principalmente, de ver o sorriso dela, de ouvir sua voz grave, de receber os carinhos com aquelas mãos sempre de unhas impecavelmente e diariamente feitas, de brincar com sua franja enquanto sua cabeça está em meu colo e ficar penteando sua sobrancelha, de ter meu cartão de crédito, para enchê-la de presentes parcelados de 3x sem juros e principalmente de tê-la ao meu lado para nada, somente porque ao meu lado é o seu lugar.



P.S.: Texto redigido ao som de soluços e com gosto de lágrimas. 



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Meu cotidiano


Todo dia eu faço tudo sempre igual. Desperto às 6h40 da manhã, levanto às 7h. 7h05 tomo meu hot chocolate with toasts enquanto preparo meu almoço, e antes das 7h30 já estou no banho. 7h50 vejo a previsão do tempo, para saber com que roupa eu vou pro samba que você me convidou... - Ops, para tudo! Confundi as músicas. - E todo dia estou pontualmente atrasado às 8h15. E todo dia, quando dá tudo certo, chego às 9h08 na escola.

Nunca tem ninguém pra me sorrir um sorriso pontual, nem me beijar com boca de hortelã e muito menos dizendo pr'eu me cuidar. Beijo com boca de café? Nem que tivesse... Detesto café, e se for com leite, posso vomitar. Às 6h p.m. não tem ninguém me esperando no portão, e depois da meia noite, o único que me jura eterno amor, sou eu mesmo.


Mas todos os dias tem a minha amiga portuguesa, uma senhorinha já na melhor idade, cabelos brancos, uma pele clara com bochechas rosadas, um uniforme laranja e uma plaquinha de STOP. Ela é voluntária de trânsito há pelo menos oito anos e presta serviço na esquina da minha casa. Todos os dias quando me vê, abre um mega sorriso, com dentes já amarelados pelo tempo, mas que não interferem na doçura que passa, e diz "Olá brasilero, hoje está muito frio, não é verdade? No seu país não é assim. Lá é maravilhoso. Ah! Como eu amo o Brasil.". Isso tudo com aquele sotaque lindo e educadíssimo do povo lusitano. Todos os dias tento dar uma resposta diferente, mas no final sempre concordando "Sim, meu país é realmente lindo!". E enquanto ela para o trânsito e eu corro para pegar o ônibus a tempo, ela grita "Have a good day!"e eu respondo, quase sem folego, por causa da corrida e do ar frio, que dificulta a respiração "For us!". 


Ontem, plena terça-feira de carnaval, ela tinha um novo assunto pra dissertar comigo. Depois dos sorrisos e dos cumprimentos, ela começa "Hoje é feriado no seu país, não é mesmo?", e eu surpreso, respondo positivamente enquanto ela continua "Que maravilha. Que festa linda que é o carnaval. Vejo pela TV à cabo todos os anos. É um grande espetáculo.". Mas antes que ela pudesse falar mais alguma coisa, o sinal abriu, ela levantou a placa e eu corri, mas ainda tive tempo de ouvir o "Have a good day!".