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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Farewell


Não foi fácil arrumar as malas, ainda mais sabendo o que isso representaria. Eu não estava feliz e nem me sentia preparado para voltar. Não fazia sentido, mesmo porque eu já sentia que aquela cidade era minha casa. Uma cidade que me recebeu tão bem, que me mostrou e proporcionou tantas coisas magníficas, que me fez crescer muito em um período tão curto. Como eu poderia voltar para casa se eu já estava me sentindo em casa?

Mas o mundo real estava me chamando e eu precisava atender esse chamado, resolver algumas pendencias e focar na minha carreira. Mas antes disso, eu precisava me despedir. Precisava dizer um ATÉ LOGO para minha Wonderland, precisava me despedir das pessoas que transformaram meu simples intercambio na maior experiência que eu tive até hoje.

Poucas vezes na vida eu me senti tão amado. Meu voo sairia às 9h30 am, mas eu precisava chegar no aeroporto às 6h30 am. Na hora que vi o horário do meu bilhete eu tive a certeza de que teria que ir sozinho para o aeroporto, que ninguém iria se dispor a madrugar para me ajudar. Foi aí que eu tive uma surpresa: A Cor de Toronto mexeu os pauzinhos, e todo mundo se juntou para fazer da minha última noite em Toronto a noite mais feliz do meu intercambio, tão feliz que não teria fim.

Não posso falar desse dia sem me lembrar do Renato e do Daniel, que foram incríveis. Foram me pegar em casa, me ajudaram com as malas e ficaram comigo do segundo que eu saí de casa até a hora que eu entrei na sala de embarque.

Tenho que agradecer ao Thiago, que liberou a casa, o violão e que me recebeu super bem. Nunca vou me esquecer que a minha última noite em Toronto foi em um apartamento na área nobre da cidade.

A Isa, minha paulistinha responsável e com sotaque lindo, que ia trabalhar pesado no dia seguinte, passou a minha última noite comigo, dividiu comigo a última vez que ouvi ‘Arriving at Keele, Keele Station’, além de ter me ajudado a segurar a barra com nossos papos cabeças.

As minhas mineirinhas lindas. Bruna, sempre fazendo piadas e me lembrando que os canadenses podem ser bem patéticos e mal educados. Que me exigiu um dia na minha última semana pra dividir com ela e que me deu o título de Melhor Jornalista de Toronto. Luisa, com o melhor abraço da cidade, a única brasileira disposta a falar inglês comigo, a única que entende o meu ‘Really’ mega famoso, além de ser a Conexão.

O cara que quase me fez chorar, que entende quando eu quero ‘Um pouco mais de paciência’ e que me lembrou de que ‘Meu destino não é de ninguém’, o Mau mais bonzinho que eu já conheci.

Teve a Jéssica, que passou só pra dizer que ia sentir minha falta e me dar um abraço maravilhoso. O Nolli, que foi o meu companheiro de aventuras, com quem eu me diverti muito na minha última semana da cidade.

E a minha Benga? Ela, que esteve comigo em mais da metade da minha viagem e dividiu a balada mais VIP que eu já fui em toda a minha vida, sabe o quando nos divertimos. Milhares de fotos, ligações, fofocas, brigas, tudo como tinha que ser, tudo perfeito.

Teve também a participação virtual do Fe, o cara que me fez viver 30 dias em um mês, que sugou cada gota da minha disposição e que mostrou o que a terra da Joelma tem. E já no aeroporto, só para posar pra foto, a minha amiga Isaura, que tem nome de escrava mas é muito RYCA, e só não é mais legal porque é corintiana.

Eu já estou no Brasil há cinco dias e confesso que ainda não me acostumei com a ideia. E o blog, que estava um pouco parado,  não por falta de assunto, mas por falta de tempo, já que eu estava vivendo os meus últimos dias de viagem, vai virar um espaço de lembranças e dicas, porque o projeto continua, e logo mais tem mais viagens pra contar! 


terça-feira, 5 de junho de 2012

All you can eat


Nada é mais a cara de estudante intercabista do que procurar restaurantes bons, baratos e que te ofereçam a possibilidade de comer muito, afinal, ninguém está achando dólar na calçada, né? Para isso, os ‘All you can eat’, ou ‘Coma o quanto puder’, são as opções perfeitas.

Como bom brasileiro que sou, amo comida japonesa (oi?) e fico louco quando vejo a possibilidade de comer peixes crus, sopas com cheiro de bafo, carnes, frangos e lulas teriyaki, ou qualquer coisa que se possa comer com hashi, os famosos pauzinhos. A oportunidade perfeita para largar de mão a comida da Homestay, nem que seja por um dia, é quando algum amigo está aniversariando. Comemorar a velhice do Mauricio foi a desculpa perfeita para se empanturrar com as delicias da cozinha oriental.

Em plena terça-feira, com o tempo nublado, lá estávamos nós, depois da aula, pagando U$ 10,99 para comer até escorrer pelos olhos. Começamos os pedidos. Marca X aqui, X ali, X acolá, e de repente alguém lembra: Para cada peça que sobra na mesa é cobrado U$ 1,00.  

Pedido enviado, começam as chegar as bandejas na mesa. Vem uma, vem outra, mais outra, e quando a gente se dá conta, a mesa está lotada de comida. Começamos a comer um pouco daqui, outro pouco dali, e a mesa continuava cheia. Uns pedidos errados, umas coisas estranhas com abacate, outras bem apimentadas, umas peças com bolinhas laranja de enfeite, mas como eu disse anteriormente, o dólar tá caro, e cada moedinha tá valendo muito, por isso, todos deram o seu melhor e deixamos só os pratos sujos.

Mas ainda não era hora de pagar a conta. Estávamos esperando um outro amigo que chegaria atrasado. Quando ele finalmente chegou, deu uma única ordem: Hora de começar tudo de novo, porque detesto comer sozinho. Quem poderia contestar? Ninguém!

Recomeçam os pedidos, desta vez mais modestos. Todos estavam a fim de colocar o ‘Coma o quanto puder’ em prática, seguindo a ordem do restaurante ao pé da letra. Chega mais sushi e mais ‘beef teriyaki’, que são abduzidos (sim, porque deve ter um ET no meu estomago comendo tudo isso) para dentro de nossos corpos em segundos.

Depois de finalmente comer o quanto podíamos, a impressão que me dava era de que eu poderia ficar três dias sem comer, estocando e usando gradativamente tudo o que comi durante o almoço. A impressão foi desfeita ao chegar em casa e me deparar com um Caneloni de carne com queijo que minha Hostmom italiana fez só para me agradar, porque ela sabe que eu amo esse prato. Comi como se fosse a última refeição da minha vida e terminei o meu dia feliz, afinal, gordo só fica feliz quando faz gordice! 



quinta-feira, 31 de maio de 2012

Contagem regressiva


Agora é oficial. Faltam só e somente 23 dias para o sonho acabar. Coração apertado, pernas bambas e mãos suando frio me descrevem durante a produção desse texto. A pior coisa é a sensação de estar deixando algo para trás. Mas isso, de fato, eu estou deixando. Estou deixando o meu velho EU. O Rafael de seis meses atrás não existe mais, e isso pode ser notado no meu novo shape, agora mais redondo, com umas curvinhas que não existiam e uma pancinha que marca na T-shirt.

Quando eu olho para trás, percebo o quanto essa experiência foi importante na minha vida. Diferentes culturas interagindo, diferentes sabores, diferentes cores, cheiros, texturas e principalmente, diferentes pessoas. No final das contas, intercambio acaba sendo sobre isso, sobre pessoas.

Sou um cara de muita sorte. No meu caminho só pessoas do bem e dispostas a me ajudar passaram. Meus amigos gringos foram maravilhosos, mas o meus brasileiros foram fenomenais. O meu amado nordeste provando que é expert em produzir gente animada e divertida, o sudeste me convidando para conhecer suas maravilhas, mas principalmente o norte, que veio forte e marcou.

Acho que fiz de tudo nesse país. Apareci na TV, nadei no Lake Ontario, presenciei cenas de violência, cenas de amor, cenas de muito amor, bebi, bebi mais, amanheci na rua, atravessei fora da faixa, sai do Beginner, apesar de adorar meu título, e até ajudei ao próximo algumas vezes.

Minha missão agora é transformar esses 23 dias em 1 ano, e viver loucamente, espremendo cada oportunidade e histórias que esse país ainda pode me dar.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Perdidos com Murphy


É incrível ver a minha evolução dentro de Toronto. Já consigo andar nessa cidade como se ela realmente fosse minha, ou pelo menos imagino que posso. Economizar tempo, pegar atalhos, conhecer três ou quatro caminhos que podem me levar para o mesmo lugar e ficar boquiaberto quando percebo que as pessoas estão perdidas, me fazem sentir isso.

Claro que nem sempre foi assim, e que eu precisei, antes, aprender a falar inglês e gravar o mapa na minha cabeça. Conhecer os pontos cardeais e decorar que o East é para direita e o West é para esquerda também facilitou um bocado.

Na primeira semana na cidade, quando ainda estava de ‘férias’ e hospedado num Apart-hotel, resolvi, junto com meu Tio Nivaldo, conhecer o caminho da nossa futura Homestay. Fomos depois da aula, na cara e na coragem, com uma única informação na mão: Keele Station!

Ignorando todos os comandos e vendo um mapa muito mal feito, andamos sem rumo. Perguntamos para o primeiro cara que apareceu na nossa frente e ele disse que precisaríamos pegar um ônibus. Pegamos o primeiro que passou. E claro, como previsto por Murphy, foi o errado.

Lembro, até hoje, de encontrar com uma menina que eu sabia que conhecia de algum lugar, mas ainda não sabia de onde. Ainda me lembro da cara da Karol. Era uma menina branca, cabelo liso e usava óculos. Fui falar com ela, mas como Murphy sempre diz que nada está tão ruim que não possa piorar, o ônibus chegou à parada dela dois segundos depois que eu cheguei nela. Continuamos no ônibus, e um garoto latino da minha escola, me chamou e disse que poderia me ajudar. Tentou, mas não conseguiu!

Descemos do ônibus e resolvemos perguntar na rua. Meu tio estava assustado e começado a ficar puto, querendo voltar pro Apart e desistir de tudo. Eu estava adorando a aventura e comecei a incentivar a busca.

Paramos um senhor bem baixinho, pouco mais alto que minha cintura. Perguntamos qualquer coisa para ele e mostramos o papel. Ficou claro onde queríamos chegar. Esse senhor é uma das milhares de pessoas que param o que estão fazendo para ajudar quem está perdido, e aqui no Canadá está cheio delas.

Ele pegou o papel, se dirigiu até o carro da policia e começou a falar qualquer coisa com o Policial. Mas, ainda fazendo referencia a Murphy, o que nós não sabíamos é que o nome da rua estava errado. Iriamos morar na Bertram Street, mas no mapa o nome da nossa rua estava com N e não com M. Esse erro impedia o Policial, que tinha cheiro de donuts, encontrar nossa casa no GPS. O Policial disse que não poderia informar exatamente, mas que provavelmente deveríamos voltar para Keele Street.

Já no final da tarde, enquanto meu tio esbravejava e só pensava em descobrir o caminho de volta para casa, pegamos um outro ônibus. Ficamos no cruzamento da Keele com a Eglinton e perguntamos para outra boa alma como fazer para chegar à maldita casa. E não tenham dúvidas de que Murphy também estava agindo por lá. O celular do cara, um iPhone qualquer coisa, descarregou bem na hora que ele ligou o GPS e ele só conseguiu ver que era pro norte. Essa informação já era ouro, pois já sabíamos que ônibus pegar.

Esperamos algum tempo na parada, mas não muito. Já estava escurecendo quando entramos no ônibus, e quando eu perguntei ao motorista se o lugar que eu precisava ir era longe, ele disse que era tão perto que eu nem precisava pegar aquele ônibus lotado. Caminhamos aproximadamente 10 minutos e encontramos, finalmente, nossa casa. Era feia, numa vizinhança feia e num lugar longe. Ficamos parados 2 minutos na frente da casa, demos meia volta e fomos ao Apart jantar. 


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Quem fala e faz



Uma das desvantagens de uma viagem longa são os relacionamentos que enfraquecem. Não por falta de amor ou nada do gênero, mas é que e difícil manter o contato quando se tem um continente inteiro separando os corpos. Normalmente é mais difícil para quem sai da zona de conforto, pois este, no caso eu, cria nova rotina e novos laços, e acaba ficando sem tempo para manter os antigos, o que é uma grande falha, confesso. Mas hoje o texto é dedicado a minha linda Ana B., que foi, de longe, quem mais conseguiu sugar de mim tempo e dedicação. Como? Simples, me dando tempo e dedicação. Ela foi a única que insistiu, mesmo quando eu não tinha tempo. Que deixou recados. Que cobrou. Que gritou. Que me aconselhou. Que se fez presente. E que estava lá, online, na hora que eu precisava. Ela, que segundo nossos planos, era para estar aqui, sabe de tudo o que se passa, com cada vírgula, com cada detalhe. E eu, que não estou lá, sei de cada passo que minha ‘Estagiária da tarde’ dá. Também grito, tanto para brigar quanto para comemorar. E desde que vim, houve muitos motivos para comemorar. Nessas horas a gente percebe que as palavras bonitas são interessantes, mas que as ações, as demonstrações, as provas, são essenciais. E se havia alguma dúvida do nosso amor, essa foi sanada da forma mais simples possível. A minha Ana B. não é a única pessoa que me faz falta aqui no Canadá, mas sem dúvida, ela é uma das poucas que merecem saber disso.



domingo, 22 de abril de 2012

O lado dark da minha cidade dos sonhos


Meu encanto e minha sensação de segurança incondicional em Toronto quebrou tal qual o anel de vidro daquela velha cantiga infantil. Sempre tive um lado meio ‘São Tomé’, e só começo a me preocupar com certas coisas quando realmente me sinto atingido por elas. A cidade é, de fato, segura e amigável, mas sempre no meio do trigo há o joio, e o joio anda de bluenight.

Sim, essa é mais uma história sobre um bluenight qualquer, voltando de uma balada qualquer, com um nível de embriaguez levemente excedido numa madrugada fria.

No ponto de ônibus, Daniel e eu. Ele pegando o bluenight pela primeira vez, com um senso de direção totalmente questionável, um iPhone que ele não entende o GPS, me fazendo mil perguntas, e a cada resposta que eu dava ele rebatia com um “Tem certeza, macho?”.

O ponto de ônibus, no cruzamento da Bloor com a Dufferin, estava cheio. Tinha gente de todo tipo, de maconheiro sussa, passando por casal hetero fofo, gringo Português perguntando se estava no caminho certo até uns carinhas mal encarados. O ônibus chega e todos entram.

Não havia lugar para sentar e a lotação estava quase completa. Mal dava para se movimentar. Os carinhas mal encarados ficaram perto da porta frontal, em pé, de frente para um cara gay, já com mais de 40 anos, com uma aparência de cigano, o cabelo grande, enrolado e amarrado, uma calça jeans boca de sino e muitas pulseiras e anéis.

Os dois carinhas não paravam de falar, mas falavam muito rápido, então eu só consegui entender quando um deles olha pro ‘Cigano’ e diz em alto e bom tom “I don’t like fags”. Obviamente o ‘Cigano’ se sentiu ofendido e resmungou, mas uma coisa discreta, que só quem estava prestando atenção percebeu. O que falou a babaquice se alterou, chegou cara a cara com o ‘Cigano’ e disse “What the fuck are you saying?”¸ e o ‘Cigano’ só respondeu algo do tipo “Leave me alone!”.

Não precisou de mais nada. O cara, provavelmente drogado, começou a gritar e falar um monte de coisa que eu não entendi, afinal na escola eles não querem ensinar as ‘bad words’. Quando ‘Cigano’ foi tentar se levantar para sair de perto, porque provavelmente estava com vergonha daquela situação, ele levou o primeiro soco. O primeiro de uma sequência.

Uma das coisas que me chamam atenção durante um evento de stress é como as leis da física são quebradas. Enquanto toda essa situação estava acontecendo, todas as pessoas em pé no ônibus iam andando lentamente para trás, e quando finalmente a agressão aconteceu, todos estavam na parte traseira do veículo, uns por cima dos outros, mais de um corpo ocupando o mesmo espaço.

O babaca deu uma sequência de socos na cara do ‘Cigano’, que não teve a menor chance de reagir, já que estava sentado. O motorista percebeu toda a movimentação, parou o ônibus, e quando ele finalmente abriu a porta, os dois marginais correram. Só então pudemos ver o estrago que foi feito na cara do homem.

Todo o episódio durou menos de 2 minutos. Foi tudo muito rápido e poucas pessoas realmente entenderam o que estava acontecendo.

Outras duas coisas me chamaram atenção. A primeira foi o motorista, que estava preparado para prestar primeiros socorros. No veículo havia um kit básico e ele sabia como usar tudo. A segunda coisa foi que não houve os ‘segundos socorros’, ou seja, ninguém chamou a polícia, ninguém chamou a ambulância e ninguém levou a vítima para o hospital.

Depois de receber os primeiros socorros do motorista, o ‘Cigano’, provavelmente envergonhado, apenas desceu do ônibus de cabeça baixa e seguiu o resto do seu trajeto a pé, com um curativo enorme na testa, o olho direito muito inchado e a roupa toda ensanguentada.

O ônibus foi interditado, os passageiros ficaram na calçada esperando o próximo e eu fiquei em estado de choque, com medo da minha sombra e a pior sensação que alguém pode sentir: A IMPUNIDADE! 


sábado, 21 de abril de 2012

04/20 às 4h20



No Brasil usamos a data com Dia/Mês/Ano, enquanto no Canadá funciona com Mês/Dia/Ano. Logo, o dia 20/04, aqui era 04/20, e como na cultura canábica o número 420 significa muita coisa, esse dia foi citado como Weed Day (Dia da Erva). Claro que eu não sabia disso e tive que aprender com uma árdua pesquisa googleando sites e Wikipédias da vida. [saber mais da cultura canábica?]

O fato é que o dia 04/20/2012 caiu numa sexta-feira, na Last Friday, que é a última sexta-feira antes da troca de nível, onde geralmente os alunos se reúnem com o professor para almoçarem juntos. Antes das 2h eu já estava livre e fui encontrar Marcus, um amigo do interior de São Paulo, para hang out together. Enquanto decidíamos o que fazer, o Ucraniano que eu nunca lembro o nome, ex-roommate de Marcus, apareceu e nos convidou para irmos ao shopping. Ficamos um tempo rodando por lá, paramos para comer, e depois fomos andar pelas calçadas, aproveitar que o clima estava permitindo tal proeza.

Não precisou de muito tempo out side para começar a sentir o cheiro da cannabis queimando. Mais na frente, na Dundas Square, vimos uma multidão concentrada, e como não sabíamos do que se tratava, então obedecemos a primeira lição do manual do turista, apesar de não ser mais turista, e seguimos o fluxo!

O cheiro forte da maconha vinha de lá, da multidão de gente descolada, algumas caras interessantes, outras bizarras, uns cachorros meio grogues com o cheiro da fumaça, mas todos juntos, cada um com seu baseado, cada um no seu quadrado, sem entrar no espaço de ninguém. O soundtrack não era reggae, não tinha nenhum manifestante alterado pedindo a legalização da droga, os policiais não eram hostis e eu estava chocado. Todo meu estereótipo de maconheiro foi quebrado, pisado e cuspido diante da diversidade de pessoas que se encontravam naquele evento, onde o único objetivo era esperar dar 4h20, que é a hora mundial de fumar maconha, e curtir o seu baseado, sem culpa e sem grilo.

P.S.: Devo ter alguma barreira que impede a aproximação de pessoas para me oferecerem drogas. Não que isso seja ruim, muito menos seja bom, apenas é. Tenho testemunhas que estavam comigo desde o início e viram que mesmo eu estando num evento de maconha, não provei, não me ofereceram e nem nada do tipo. Só meu cabelo que ficou com um cheiro insuportável!


terça-feira, 10 de abril de 2012

O segredo do Russo


Como eu nunca gostei de leite, aquele papo de que ‘nunca fiz amigos bebendo leite’ cabe perfeitamente na minha vida. Minha mãe conta que essa minha aversão começou com o líquido materno, e que eu parei de mamar com nove meses por livre e espontânea vontade. Acho, até hoje, que não cresci o suficiente por causa disso, ou seja, culpa da minha mãe, que aceitou a decisão de um bebê com menos de um ano.

Não acredito, também, que as amizades comecem, ou pelo menos se estruturem, a partir do álcool. Não é minha intensão fazer apologia, mas confesso que a santa bebida etílica proporciona grandes e divertidas histórias, daquelas que passam de geração em geração.

Foi em uma dessas noites em que eu não me encontrava no meu estado mais sóbrio que, voltando para casa de uma balada qualquer, esperando o bluenight, conheci o meu amigo russo que não era russo, e que não podia explicar como isso era possível porque na vida, às vezes, precisamos esconder alguns segredos.

Enquanto esperava o ônibus, às 4h da manhã de um sábado frio, o velho Russo me contava que não podia contar seu segredo, pois ele fazia parte de um programa especial da ONU para vítimas da 2ª Guerra Mundial, que seu pai havia nascido na Polônia, mas também não era polonês e que, na verdade, quem realmente viveu a guerra foi seu avô, e se me contasse mais que isso, teria que me matar.

Ele falou isso com tanta verdade e propriedade, sem gaguejar e nem pausar, que na hora eu puxei o capuz do meu casaco, que cobria minha cabeça, só para olhar bem para a cara dele e marcar aquela face. Sinceramente, eu não sei o que tinha na minha bebida, mas acho que tinha um Google Translator no meio do drink, porque eu entendi tudo com tanta clareza, que cheguei a ficar realmente com medo do pobre velho me matar. Fiquei com tanto medo que deixei transparecer na minha cara. Ele percebeu, caiu na gargalhada e disse que eu não tinha com o que me preocupar.

Durante sua explanação, chegou um terceiro elemento na parada, o que me deu um pouco mais de segurança. Não sei se é normal, mas acho que ter uma terceira pessoa me faz achar que ninguém terá coragem de fazer nada, afinal ninguém quer testemunhas, e se fizer, alguém morrer comigo me deixa mais tranquilo.

O ônibus realmente demorou nesse dia, o que deu oportunidade para o velho puxar um novo assunto: O quanto eu me parecia com um turco. Ele insistia em dizer que meus traços e a forma como me visto era típicas dos turcos, e que eu devia questionar minha mãe sobre a real identidade do meu pai. - Pausa para dizer que eu sou a cara do meu pai. Não há o que questionar. - Não satisfeito, ele resolveu perguntar para o cara ao lado o que ele achava. Sem pestanejar, o cara diz: Está óbvio que ele é latino!

O velho russo não parava de fazer suposições sobre a minha vida. Se na minha bebida tinha uma dose de Google Translator, na que serviram para ele, provavelmente tinha um Grilo Falante. Ele perguntou como estava a minha carreira de ator de teatro no Brasil, se eu tinha gostado da minha última viagem para Londres, porque tinha voltado para Toronto, etc.

Quando finalmente o ônibus passou, eu entrei e ele ficou. Segui o resto do caminho calado, pensando que seria interessante ter uma dupla nacionalidade e que a Turquia seria um país divertido de visitar. 


domingo, 8 de abril de 2012

Lero by myself

Ela não parava de me olhar. Era uma senhora de aproximadamente 50 anos, com o cabelo armado, penteado para o lado, loiro escuro com mechas marrons, um par de grandes brincos de pérolas, óculos de grau quase na ponta do nariz, um casaco preto de veludo, um cachecol bonito, calça vermelha e um sapato horroroso, sentada no ônibus, enquanto segurava o jornal na página das palavras cruzadas.

Quando me dei conta de que ela estava me observando, com aqueles olhos castanhos saltando por cima dos óculos, percebi que ela já estava fazendo isso há algum tempo. Sua feição de indagação, com aquela testa franzida, típica de desenhos em quadrinhos, era muito engraçada, mas era muito constrangedora ao mesmo tempo.

O ônibus começou a encher e um garoto, estudante, provavelmente, já que estava de uniforme e uma grande mochila, se posicionou na frente da tal mulher. Sua mochila ficou de uma forma que bloqueou o olhar acusador que estava me incomodando. Até hoje acho que esse garoto era um anjo, já que além de me proteger daqueles olhares, ele bloqueava o sol, que estava na minha cara, com a aba do boné dele.

Quando o garoto finalmente desceu do ônibus, percebi que a senhora já não estava mais lá, e que no lugar, havia uma adolescente com seus 15 anos, no máximo. Era loira, tinha uma franja lisa e o cabelo meio seco. Usava uniforme também, segurava no colo uma mochila da Hello Kitty e estava com um tênis muito legal, que me deu inveja e vontade de perguntar onde eu poderia comprar igual.

Minutos depois de ter começado a fantasiar um possível papo com a garota, percebo que ela começa a me olhar. Um olhar estranho, mas que eu já conhecia. Era uma feição de indagação, com aquela testa franzida, típica de desenhos em quadrinhos. Era engraçada e constrangedora ao mesmo tempo, exatamente igual ao olhar da mulher que a antecedera naquele mesmo lugar.

Nessa hora passei a mão no cabelo, para saber se estava assanhado, passei um lenço no rosto, para limpar qualquer possível mancha de creme dental, assoei o nariz, caso estivesse com alguma meleca pendurada. Estava tudo em perfeito estado, como deveria estar.

Foi nessa hora que me dei conta de que estava, desde que entrei naquele ônibus, ‘levando um lero by myself’ em inglês. E que aqueles olhares, provavelmente, estariam indagando o conteúdo da minha conversa, que estava muito boa, por sinal. Lembrei-me dos meus tempos no Brasil, quando eu estava no lugar da senhorinha e da pirralha, olhando com cara de indagação, com a testa franzida, típica de desenhos em quadrinhos, os outros loucos e totalmente ‘forever alone’ que conversam sozinhos no ônibus. 


domingo, 1 de abril de 2012

De olhos abertos



Às vezes a comodidade nos deixa com venda nos olhos e acaba atrapalhando nossa vida, nos forçando a fazer coisas estúpidas. Mas se você passar a fazer as viagens de ônibus com os olhos abertos prestando atenção no mundo que está girando a sua volta e perceber que cada segundo que você perde não volta, um novo mundo se abre, um mundo mais prático, mais eficiente e mais divertido.

Eu não sei bem de onde eu estava voltando, mas lembro de que já passava da meia noite. Nesses casos, normalmente meu senso de responsabilidade e o medo de passar do meu ponto de ônibus me tiram o sono e me fazem sempre olhar pela janela, só para ter a certeza de que estou indo pelo caminho certo.

Foi em uma dessas olhadas pela janela que eu vi, em uma placa gigantesca, que há um Walmart, o supermercado da minha vida, a menos de 3 minutos de ônibus, e mais de 15 a pé, da minha casa. Fiquei em êxtase com a novidade e logo em seguida me odiei por descobrir isso só três meses depois de ter chegado aqui.

Sempre fui a favor do “todo castigo é pouco para gente burra”, e me odeio quando percebo que fui burro. Três meses pegando um ônibus que demora aproximadamente 25 minutos para chegar à estação de metrô, mais 8 minutos no metrô, caminhar duas quadras e fazer o mesmo percurso para voltar, tudo isso só para comprar alguns poucos pacotes de chips e cookies, quando poderia apenas pegar um único ônibus, esperar cinco minutinhos, se o semáforo estiver vermelho, e fazer tudo igual e com o mesmo preço mínimo. 


quinta-feira, 29 de março de 2012

Equilíbrio

Não importa a horas que eu durma, se eu tiver que acordar às 6h50 da manhã, ainda estarei com sono e de mau humor. Mas como tudo na vida tem o lado positivo, o tempo que eu passo no ônibus e no metrô é a conta exata do tempo que me faltou na cama, então, aproveito para dormir.

Sempre que me pego pensando nesse tipo de coisa, me sinto mal e me acho preguiçoso, até o dia que descubro que não sou o único. E nesse caso, ainda me sinto humilhado por não ter o equilíbrio que os canadenses têm. Não, eu não falo do equilíbrio emocional, falo do equilíbrio físico mesmo, aquele em que o estado do corpo se mantém sobre um apoio, sem se inclinar para nenhum dos lados.

Tiro o chapéu quando entro no metrô e não tem nenhuma cadeira livre, mas lá está ele, de pé, alto, com uma roupa social, cabelo com gel, barba feita, pasta de couro em uma das mãos e a outra segurando a barra de segurança enquanto aproveita seus últimos minutos de sono antes de começar o expediente. E enquanto a vida passa, enquanto milhares de vida passam, o corpo fica inerte e o pensamento voa longe, mas só até o momento em que ouve: Arriving at Bay, Bay Station. Nesse momento, os olhos abrem e o corpo desperta, tudo numa elegância e discrição de dar inveja, e finalmente o seu dia começa. 



p.s.: Texto ainda sem imagem!

terça-feira, 27 de março de 2012

Firsts days



Nunca nada me assustou tanto como os primeiros dias. Primeiro dia de aula, primeiro dia no trabalho, primeiro dia na casa nova, primeiro dia na cidade nova. Não importa o quanto eu tente parecer descolado, definitivamente não gosto do novo, de me arriscar, de enfrentar o desconhecido. Sim, sou um bundão.

Não tem um primeiro dia na minha vida em que eu não pense: Cadê a minha mãe? Eu não sei bem quando isso começou, mas eu não fui sempre assim. Na verdade, acho que comigo aconteceu o processo inverso do natural, já que fui mimado depois da puberdade, depois de ter tido experiências onde eu era o meu próprio responsável.

Mas como "o que não tem remédio, remediado está", lá vou eu, todos os meses, enfrentar meu algoz. Todos os meses, nos últimos três meses, conhecer um professor diferente, entrar em uma sala diferente, usar um livro diferente, conhecer pessoas diferentes, de países diferentes.

Ainda me lembro do meu primeiro dia de aula no intercambio. Cheguei cedo, mudo e sentei. Aos poucos os outros alunos foram chegando e a professora também. Era uma terça-feira e na medida em que os veteranos chegavam e se acomodavam, abriam o workbook para conferir o homework.

Era tudo muito novo para mim e eu não entendia uma vírgula do que a professora falava. Me tremi todo quando, depois da correção do homework, ela pediu para que cada um se apresentasse. Fui prestando atenção em todos e quando chegou, finalmente, a minha vez, senti um grande frio na espinha e falei, quase gaguejando: Hi, I’m Rafael, I’m from Brazil and I’m forty-one years old.

Mesmo tendo corrigido a minha idade dois segundos depois, já era tarde. A professora já estava morrendo de tanto rir, os outros brasileiros estavam com vergonha aleia e os gringos todos me olhando torto. Achei que nunca mais teria chance de ser alguém naquela turma, até o segundo dia, afinal, o problema é sempre o primeiro dia.

Não importa com quanta graça e sucesso eu sobreviva a todos esses primeiros dias cheios de novidades, ainda assim me assusto. Minha vontade sempre é ficar em casa, embaixo das cobertas, sem fazer barulho, sem ser notado, e deixa-lo passar, apesar de ser racional o suficiente para saber que segunda-feira não é sinônimo de primeiro dia.

Quando me pego pensando o porquê de toda essa aversão, a conclusão sempre gira em torno da minha baixa autoestima. O medo maior é o medo de não ser aceito, de não corresponder às expectativas. Isso sim é assustador, já que normalmente os primeiros dias de qualquer coisa na vida são praticamente todos iguais: Como é o seu nome? Sua idade? De onde você é? O que você fazia antes de vir parar aqui? Ou seja, uma grande apresentação sobre um assunto que, teoricamente eu deveria dominar: EU MESMO.


terça-feira, 20 de março de 2012

Welcome spring. I'm missing you, winter!



Hoje começou a primavera aqui pelas bandas do hemisfério norte, e ela trouxe junto a frustração e a reflexão about myself. Mais uma vez me peguei pensando no quanto a vida é curta e no quanto a desperdiço dormindo ou praticando o ócio.

O inverno, odiado por tantos e amado por mim, acabou. Acabou e meu deixou com a sensação de fracasso, de não tê-lo aproveitado o tanto quanto eu queria. E hoje me dói pensar que nunca mais, ou pelo menos não tão cedo, irei voltar a patinar no gelo do Harbourfront ou do City Hall, esquiar, me faz lembrar que não caminhei sobre o lago congelado do High Park, que não fiz o meu próprio boneco de neve, que não bati minha foto de sunga deitado na neve ou simplesmente não terei mais a oportunidade de usar minhas roupas de frio. Pior ainda, me faz lembrar que oleosidade de pele existe e que ainda possuo glândulas sudoríparas.

Agora, quando me deparo com a previsão do tempo marcado 27°C positivos, me arrepio e lembro-me do quanto ficava empolgado quando, num passado não tão distante, os termômetros marcavam -2°C quase que diariamente.

Mas passou, e agora chegou a primavera, a estação das flores. Agora os planos são outros. Quero passeios no parque, quero a minha roupa mais colorida, quero sair de chinelo e usar óculos escuros, quero bater lindas fotos e mais do que isso, não quero mais essa sensação de ver a vida passar. 


sexta-feira, 9 de março de 2012

I’m from Amapá



Há mais de dois meses no Canadá e eu ainda não conheço nem 50 canadenses. Toronto poderia ser considerada uma cidade do mundo e não do Canadá, afinal, todo o mundo se concentra por aqui para as mais diversas finalidades.

Com uma mistura tão grande e nada homogênea, diariamente faço as mesmas perguntas para pessoas diferentes. Perguntas básicas, daquelas que a gente aprende na aula de inglês da 2ª série na escola pública, tipo: What is your name? Em seguida: Where are you from? E as vezes: How old are you? E as respostas que ouço sempre são acompanhadas de um: And you?

Sempre respondo as mesmas coisas, e vez ou outra, quando o gringo é metido a espertinho, pergunta: But do you live in Rio de Janeiro or São Paulo? E lá vai eu explicar que o Brasil tem mais 24 estados e eu moro no extremo norte do país. Mas legal mesmo é quando eu conheço um brasileiro, e ele pergunta: Mas você é de onde? E eu, com meu instinto ‘QUERO CAUSAR’, falo cheio de orgulho: Sou do Amapá!

Ok, eu sei que sou cearense, e sim, eu amo meu estado, minha cidade. Mas é tão legal esfregar na cara do resto do mundo que o Amapá existe sim, e que nós também saímos do país para estudar outros idiomas além do Tupi-Guarani e Nhengatú. Mais legal ainda é quando você tem que dar uma aula de geografia, e explicar que o nordeste não é a Bahia, e que o norte não é a Amazônia, e comentar sobre o fato de Macapá ser a única capital do Brasil banhada pelo maior reservatório de água doce do planeta, Rio Amazonas, e é cortada pela Linha imaginária do Equador.

Para mim isso não faz a menor diferença, mas se é para causar, falar de exclusividades e recordes sempre impressiona. E eu não ligo se moro no único estado do país que não tem banda larga, se as ruas são esburacadas ou se o fato trágico de ser localizado na Linha do Equador o torna a antessala do inferno, afinal, tenho minha família e os melhores amigos do mundo para compartilhar essas frustrações comigo. E eu não admito que neguinho nenhum se meta a besta para falar da cidade que tomei para mim, afinal, nós que moramos lá, já somos muitos e fazemos isso sempre!


terça-feira, 6 de março de 2012

Sobre saudade

Minha Ló


Minha vida tem se resumido a saudade. Saudade da minha cama, saudade da minha casa, saudade da minha família, dos meus amigos, saudade das pessoas maravilhosas que conheci no Canadá e já voltaram para o Brasil e, principalmente, saudade da minha boneca, da minha linda, adorável e louca irmã caçula.

Aquele ser que consegue ter o bem e o mal dentro de si, e que não sabe dosar nenhuma das partes. Que consegue ser irritantemente doce como histericamente grossa, que nunca está satisfeita com os carinhos e que não passa um dia sequer sem chorar.

Que saudade de controla-la, de dizer que ela está gorda, de manda-la calar a boca, de convencer a minha mãe a proibi-la de sair de casa, de manda-la fazer regime, de dizer que ela está horrorosa com a roupa B e que ela precisa usar a roupa A.

Mas principalmente, de ver o sorriso dela, de ouvir sua voz grave, de receber os carinhos com aquelas mãos sempre de unhas impecavelmente e diariamente feitas, de brincar com sua franja enquanto sua cabeça está em meu colo e ficar penteando sua sobrancelha, de ter meu cartão de crédito, para enchê-la de presentes parcelados de 3x sem juros e principalmente de tê-la ao meu lado para nada, somente porque ao meu lado é o seu lugar.



P.S.: Texto redigido ao som de soluços e com gosto de lágrimas. 



domingo, 4 de março de 2012

O dia em que eu quase congelei

Nariz escorrendo e a cara de feliz



Primeiro você para de sentir as extremidades do corpo, como os dedos dos pés e das mãos. Os músculos do rosto doem. Você fica extremamente cansado com facilidade, afinal, mal consegue respirar. O nariz escorre muito. As orelhas congelam. Se você tem dentes sensíveis, eles irão doer. E no final, você tem a certeza que o inferno é gelado!

Roupa térmica, duas calças jeans, camisa de lã, três camadas de casacos, cachecol, meias impermeáveis, meias quentes, bota de neve além de protetor de orelhas e gorro. Tudo isso foi insignificante para aquela tarde fria de Quebec, capital da maior província do Canadá.

Fazia aproximadamente -28°C, mas a sensação térmica era de, pelo menos, -35°C. Confesso que não me lembro da temperatura exata, mas esse detalhe é insignificante diante dos meus gritos de ódio, blasfemando contra o mundo, e pensando ‘Que espécie de idiota paga para sofrer desse jeito?’.

Era uma viagem com o grupo da escola. Mais da metade do grupo era brasileiro. Tinham uns adolescentes fúteis (nada contra os fúteis, só contra os adolescentes), uns nerds, um japonês que conhecia todos os palavrões em português e a galera legal, como meu tio, minha prima e eu. A viagem foi toda dentro de um ônibus nada confortável, e minhas pernas finas e compridas estavam doendo, afinal, não encontrei posição para coloca-las enquanto eu tentava dormir. Nesse dia eu realmente quis ser menor, mesmo já me achando extremamente baixo.

Como o sábio Murphy já havia alertado, se algo pode dar errado, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível, exatamente como o que aconteceu. Chegamos a Quebec pela manhã, deixamos as coisas no hotel, tomamos o café da manhã mais caro e menos simpático de nossas vidas, e a guia nos levou para ‘conhecer’ a Old Quebec a pé.

Ultimamente tenho me questionado muito sobre o que passa na cabeça das pessoas quando elas têm ideias estúpidas, e esse com certeza foi um desses dias, afinal, aquele era realmente um dia frio, e nós ali, fazendo passeios a céu aberto, sem ver nenhum sinal de civilização humana, e a louca fingindo que estava feliz!

Mas já que estávamos ali e tínhamos pagado caro por aquilo, resolvemos, pelo menos, bater fotos e fingir que estava tudo perfeito e maravilhoso, para que todos morressem de inveja no Facebook. E foi em uma dessas paradas para fotos que nos perdemos do grupo. Confesso, foi o melhor que podia ter acontecido, porque entramos no Subway, a porta mais próxima da gente, e ficamos nos esquentando lá.

Uma coisa importante sobre o Canadá é que não importa o quão pobre ou simples pareça o bar, lanchonete ou qualquer espécie de comércio, pode ser uma budega, mas ele terá aquecedor, e isso salvará sua vida.

E é nessas horas de ócio e muito frio que você enlouquece. E acho que foi isso que aconteceu comigo, logo depois do almoço, quando, caminhando, chegamos a um parque onde só se via o branco do horizonte, tudo com muita neve. Por algum motivo, eu estava muito feliz. Não sei se foi algum mecanismo de defesa do meu subconsciente, mas eu comecei a me divertir. Corri, pulei, rolei na neve e esqueci toda a dor e frio. Pena que isso durou menos de 1h, e logo depois lá estava eu, gritando e blasfemando contra o mundo! 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Hit

Com tantas opções, olha o brazilian song que os gringos foram amar


Oh, if I catch you - Michel Teló


O trio de três


A festa seria na sexta-feira à noite, e o trio de três babacas idiotas resolveu que iria a tal festa. Até aí, tudo bem, afinal, o que mais se vê em festas são trios de três babacas idiotas.  O diferencial desse trio de três, era que cada um falava um idioma diferente, uma verdadeira torre de babel. O mais bonito falava português, o outro, que era bonito também, mas não tão quão o primeiro, falava coreano e a garota falava espanhol. A única coisa que eles tinham em comum era o péssimo inglês.

Começaram a combinar hora e local para o encontro ainda pela manhã, na sala de aula. Continuaram pela tarde, na internet. Já estava tudo certo, 9h30 p.m. na Osgoode Station. O mais bonito achou que fosse chegar atrasado e resolveu avisar antes. Os outros dois confirmaram a hora, e ficou combinado esperar até as 9h45 p.m. Às 9h42 p.m. o mais bonito chega e encontra o menos bonito, e usando só e somente o simple present, descobrem que a garota estava atrasada, e que provavelmente chegaria depois das 11 p.m.

Os dois garotos resolveram ir sozinhos a festa, mas se perderam no caminho. Era uma noite fria, e o menos bonito, recém-chegado na cidade, e que estava trajando somente uma t-shirt e um moleton, logo começou a congelar. Era engraçado ver aquele garoto se tremendo todo. “Que idiota! O que ele tem na cabeça de sair de casa praticamente nu?”, pensou o mais bonito.

Um tempo depois, depois de usar mimicas e apontar pra direções pedindo informação, eles conseguiram chegar à festa. Mas como tudo o que está ruim, pode piorar, havia uma fila imensa na porta, e eles tiveram que esperar sua vez na calçada. O frio continuava frio, e o menos bonito continuava congelando, enquanto o mais bonito não parava de rir.

Já no nightclub, depois que a garota havia chegado, eles resolvem tomar uns ‘bons drink’. A pedida foi vodka with strawberries. Bebidinha doce, gostosa, acabou em dois tempos. Eles queriam ficar loucos, e resolveram apelar, “Tequila shot, please!”. A cara do coreano menos bonito foi algo impagável. Os outros dois se olharam, e sem precisar dizer uma palavra, chegaram à conclusão “É a primeira vez dele!”.

Não chegaram a ficar loucos, mas os sul-americanos ficaram bem animadinhos, enquanto o asiático entregou os pontos, e ficou sentado boa parte da festa, vendo todo aquele povo estranho e sem saber onde tinha se metido.

A noite acabou sem grandes emoções, na estação de metrô, todos se despedindo e marcando algo para o dia seguinte. 


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Melhor custo-benefício

Estou amando, e o meu amor é de plástico. Ele cabe na palma da minha mão e está sempre no meu bolso. Com ele vou a lugares incríveis. Ela nunca falhou. Nunca me deixou na mão. Eu não saberia como viver se o perdesse. Quando eu o apresento, todos me deixam passar, todas as portas se abrem. Ele me dá O Poder. Meu amor é lindo, mas já já vai ficar inútil, então vou ter que comprar um novo amor. Tem gente que diz que o meu amor é caro, ou 'too expensive', mas eu discordo. Em matéria de custo-benefício, ele é o melhor, afinal, quem mais me incentivaria a descobrir novos e maravilhosos lugares e fazer fotos lindas, senão ele? Ele é maravilhoso!


Eis o meu amor. Meu Metropass, que custa 104 Dólares Canadense, é mensal e me permite andar de ônibus, metrô e streetcar, que é uma espécie de bonde urbano, de maneira ilimitada, a qualquer hora do dia ou da noite. Em ônibus ou streetcas, basta apresentar o cartão, e nas estações de metrô, ele funciona de forma magnética. 
Esse pedacinho de plástico tem salvado minha vida de 'recém chegado' na cidade grande. Aqui, posso me perder, ou me achar, a vontade, sem medo, que o máximo que vai me acontecer é esperar no frio algum 'Bluenight' da vida passar e me pegar!


p.s.: Ficou curioso pra saber o que são os 'Bluenights'? Continua passando por aqui, que aposto que um dia isso vira texto, ou corre no google.ca e procura. 


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Meu cotidiano


Todo dia eu faço tudo sempre igual. Desperto às 6h40 da manhã, levanto às 7h. 7h05 tomo meu hot chocolate with toasts enquanto preparo meu almoço, e antes das 7h30 já estou no banho. 7h50 vejo a previsão do tempo, para saber com que roupa eu vou pro samba que você me convidou... - Ops, para tudo! Confundi as músicas. - E todo dia estou pontualmente atrasado às 8h15. E todo dia, quando dá tudo certo, chego às 9h08 na escola.

Nunca tem ninguém pra me sorrir um sorriso pontual, nem me beijar com boca de hortelã e muito menos dizendo pr'eu me cuidar. Beijo com boca de café? Nem que tivesse... Detesto café, e se for com leite, posso vomitar. Às 6h p.m. não tem ninguém me esperando no portão, e depois da meia noite, o único que me jura eterno amor, sou eu mesmo.


Mas todos os dias tem a minha amiga portuguesa, uma senhorinha já na melhor idade, cabelos brancos, uma pele clara com bochechas rosadas, um uniforme laranja e uma plaquinha de STOP. Ela é voluntária de trânsito há pelo menos oito anos e presta serviço na esquina da minha casa. Todos os dias quando me vê, abre um mega sorriso, com dentes já amarelados pelo tempo, mas que não interferem na doçura que passa, e diz "Olá brasilero, hoje está muito frio, não é verdade? No seu país não é assim. Lá é maravilhoso. Ah! Como eu amo o Brasil.". Isso tudo com aquele sotaque lindo e educadíssimo do povo lusitano. Todos os dias tento dar uma resposta diferente, mas no final sempre concordando "Sim, meu país é realmente lindo!". E enquanto ela para o trânsito e eu corro para pegar o ônibus a tempo, ela grita "Have a good day!"e eu respondo, quase sem folego, por causa da corrida e do ar frio, que dificulta a respiração "For us!". 


Ontem, plena terça-feira de carnaval, ela tinha um novo assunto pra dissertar comigo. Depois dos sorrisos e dos cumprimentos, ela começa "Hoje é feriado no seu país, não é mesmo?", e eu surpreso, respondo positivamente enquanto ela continua "Que maravilha. Que festa linda que é o carnaval. Vejo pela TV à cabo todos os anos. É um grande espetáculo.". Mas antes que ela pudesse falar mais alguma coisa, o sinal abriu, ela levantou a placa e eu corri, mas ainda tive tempo de ouvir o "Have a good day!".